XVII Seminário Internacional de
FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CIÊNCIA
Mini-curso sobre
Etnometodologia, fenomenologia
e estudos sociais da Ciência
Prof. Dr. Kenneth Liberman
(Universidade de Oregon – EUA)
De 03 a 28 de maio de 2010
Primeira semana – 03 a 09 de maio – Duas noções-chave da etnometodologia
Uma introdução à etnometodologia por meio de duas de suas mais adotadas noções – relatabilidade [accountability] e reflexividade.
Quarta-feira – 05 de maio
- Relatabilidade na produção intersubjetiva de sentido
A “Relatabilidade” refere-se a um trabalho prático de um grupo de atores preocupados em encontrar uma forma de organizar a si próprios de modo que suas tarefas práticas possam ser realizadas de uma maneira ordenada, e de modo que todos os participantes possam reconhecer qual é a ordenação local. As partes oferecem, cada uma, “relatos” do que estão fazendo; uma vez oferecidos, esses relatos podem ser aceitos, corrigidos ou rejeitados. As atividades locais procedem então sob a autoridade do relato. Esses relatos compõem os meios para a institucionalização das tarefas em um ambiente local. Em todo ambiente social, pessoas se encarregam de atividades não somente por causa da realização do trabalho em causa, mas também com uma orientação duradoura para a tarefa de produzir e manter uma ordenação social que facilitará a realização cooperativa do trabalho em causa. Esse interesse pela ordenação local de tarefas é uma preocupação de cada pessoa, e mesmo uma obrigação irresistível [compelling], sem interrupções, e contém a relatabilidade de toda ocasião local.
Além de uma introdução teórica ao problema, serão apresentados exemplos de um grupo de atores organizando uma interpretação de regras locais para suas tarefas, usando videoclipes de pessoas aprendendo a jogar um jogo de tabuleiro pela primeira vez.
Bibliografia
Michael Lynch, “Accounts,” in Scientific Practice and Ordinary Action, Cambridge Univ. Press, 1993, pp. 14-15 & 286-87.
John Heritage, “Accounts and Accountability,” in Garfinkel and Ethnomethodology, Polity Press,1984, pp. 135-41 and 147-150.
Kenneth Liberman, “Objectivation” in Dialectical Practice in Tibetan Philosophical Culture, Rowman & Littlefield, 2004, pp. 92-106 & 107-20.
Sexta-feira – 07 de maio
- A reflexividade do entendimento
“Reflexividade” é a noção mais importante em etnometodologia, e, em certa medida, difere do discurso sobre reflexividade encontrado em antropologia e filosofia. A capacidade de observar as suas próprias pressuposições na criação das descrições etnográficas não é o que está em jogo aqui. Antes, os modos reflexivos em que pessoas comuns entendem seu mundo em ambientes cotidianos são aqui o alvo da pesquisa. Embora as ideias fenomenológicas sobre a projeção de estruturas de sentido sobre a experiência (de modo geral, os legados de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty) deem forma a essas investigações, a etnometodologia vai além do idealismo e do individualismo fenomenológicos ao observar como os eventos se organizam em modos que excedem os controles racionais e deliberados.
As interpretações ativas ou os interesses unem suas forças e relevância, o que por sua vez reforça a coerência e a inteligibilidade das interpretações que são assim empregadas. Como notou Wittgenstein, o sentido de uma palavra é seu uso; a etnometodologia investiga como esses usos são incorporados pelas partes colaboradoras em uma estrutura de entendimento, e como essa estrutura é então tornada disponível para todos.
Exemplos específicos dos usos sociais de glosas, relatos e articulações serão oferecidos, com especial atenção para como eles unem sua especificidade de sentido e referência por meio da maneira pela qual eles são postos em uso em tarefas locais. Alguns exemplos serão extraídos de gravações em vídeo de experimentadores profissionais distinguindo os sabores percebidos em uma xícara de café.
Bibliografia
Michael Lynch, “Reflexivity,” in Scientific Practice and Ordinary Action, pp. 15-22 & 34-38.
Eric Livingston, “Naturally Organized Ordinary Activities,” Making Sense of Ethnomethodology, Routledge, 1986 (one page).
Kenneth Liberman, “Thinking With Categorial Forms,” in Husserl’s Criticism of Reason, Lexington Books, 2007, pp. 32-34.
Kenneth Liberman, “Heidegger’s Notion of Befindlichkeit and the Meaning of ‘Situated’ in Social Inquiries,” Quaderni del Dipartimento, No. 46, Facoltà di Sociologia e Ricerca Sociale, Università di Trento (Italy), pp. 14-20.
Segunda semana – 10 a 16 de maio – Raciocínio prático
O papel de estrutura no raciocínio prático será examinado, um tópico que inclui uma revisão dos benefícios oferecidos por uma organização formal competente do pensamento, e uma consideração de como a reflexão pode ser limitada por uma aderência necessariamente por repetição às estruturas formais que ajudam seu progresso.
Quarta-feira – 12 de maio
- O “método documental” de interpretação e a pesquisa científica
O “método documental” é um termo técnico usado pela etnometodologia para descrever os modos mundanos em que as pessoas organizam seus raciocínios em ambientes locais. Um caminho de análise realiza sua contundência persuasiva [cogency] por referência a um esquema mais amplo, generalizado, de tarefas, o qual é sugerido pela análise local. Comumente presume-se que esse esquema generalizado preexiste à análise local e é não-contextual, mesmo se seu sentido e intenção são derivados daqueles caminhos de reflexão localmente contingentes. Uma vez que a análise local tira vantagens de um raciocínio mais generalizado, essa ordem formal ou metafísica é evocada para enobrecer o curso local do raciocínio. O seminário lerá o capítulo seminal de Garfinkel sobre esse problema, o qual será suplementado em aula com exemplos adicionais extraídos de estudos científicos sociais.
Bibliografia
Harold Garfinkel, “The Documentary Method of Interpretation in Lay and Professional Fact Finding,” Studies in Ethnomethodology, Prentice-Hall, 1967, pp. 76-103.
Sexta-feira – 14 de maio
- A organização do raciocínio formal entre debatedores tibetanos
Um estudo de caso de raciocínio filosófico formal será apresentado por meio de gravações em vídeo de monges-filósofos tibetanos debatendo questões epistemológicas. Vários debates públicos formais, de dez minutos de duração, serão analisados, um por um, com um interesse em identificar e descrever quais práticas de raciocínio formal facilitam o questionamento inventivo e quais são somente sofismas. Embora pensamento inventivo e sofismas normalmente acompanhem um ao outro, o uso habilidoso da dialética negativa pode ajudar a manter o pensamento com vigor para o que ainda está por ser descoberto. Não haverá leitura para esse seminário; entretanto, uma aula apresentando uma análise adicional dos dados referentes aos estudos dos casos tibetanos pode ser organizada, se houver interesse.
Terceira semana – 17 a 23 de maio – Estudos etnometodológicos da prática científica
Ambos os encontros dessa semana focarão em estudos detalhados de Garfinkel et al. sobre as práticas locais dos cientistas de laboratórios.
Quarta-feira – 19 de maio
- Laboratórios de pesquisa 1
Vamos rever o estudo de um laboratório de astronomia que descobriu um pulsar óptico.
Bibliografia
Harold Garfinkel, Michael Lynch, & Eric Livingston, “The Work of a Discovering Science Construed with Materials from the Optically Discovered Pulsar,” Philosophy of Social Sciences 11 (1981), pp. 131-58.
Sexta-feira – 21 de maio
- Laboratórios de pesquisa 2
Vamos rever o trabalho de um laboratório químico que estuda o crescimento de axônios. Nessa semana (terceira), espera-se que tanto os que seguem o seminário quanto o professor reconhecerão melhor os questionamentos de cada um, e esses dois estudos de caso podem servir como uma oportunidade para uma colaboração referente a interesses mútuos, oferecendo a ocasião, no seminário, para um encontro mais dialético.
Bibliografia
Michael Lynch, Chapter 4 of Art and Artifact in Laboratory Science: a study of shop work in a research laboratory, Routledge, 1985.
Michael Lynch, “The Crisis of Relativist and Constructivist Studies,” in Scientific Practice and Ordinary Action, pp. 102-7
Quarta semana – 24 a 31 de maio – Etnometodologia e fenomenologia
Trata-se de uma ampla recensão das relações epistemológicas e metodológicas entre essas duas tradições aparentadas.
Quarta-feira – 26 de maio
- A reespecificação etnometodológica da fenomenologia da constituição
O caráter radical da etnometodologia consiste em sua recusa constante em acreditar e em aceitar sua própria propaganda. Vamos rever as estratégias de Garfinkel para expor e enfraquecer os pressupostos inaparentes que estão em ação em vários questionamentos etnometodológicos. Alguns exemplos serão extraídos de um livro em preparação, Um curso de etnometodologia, que retoma as auto-críticas de Garfinkel no decorrer de sua investigação da ordenação local de filas. Os participantes do seminário serão convidados a oferecer seus próprios exemplos, seja de sua própria pesquisa seja da pesquisa de outros autores já estudados. O capítulo sugerido de meu livro recente, Husserl’s Criticism of Reason, enfatiza os modos em que a etnometodologia é mais radical que outras estratégias fenomenológicas.
Bibliografia
Kenneth Liberman, “Garfinkel’s Uncompromising Intellectual Rigor,” Husserl’s Criticism of Reason, pp. 85-118.
Sexta-feira – 28 de maio
- Estudos fenomenológicos da ciência
A leitura sugerida é uma breve apresentação dos elogios e críticas etnometodológicos do projeto husserliano de investigar o Lebenswelt ou mundo-da-vida, tal como explicitado em seu estudo do mundo-da-vida dos praticantes da ciência, A crise das ciências européias.
Bibliografia
Harold Garfinkel and Kenneth Liberman, “The Lebenswelt Origins of the Sciences,” Human Studies 30 (2007), pp. 3-7 & 24-29
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Organização:
Grupo Temático Estudos de Filosofia e História da
Ciência
Apoio Institucional:
USP e Fapesp