I Seminário Internacional
FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CIÊNCIA
Sobre as relações entre a Astronomia e a Cosmologia
Prof. Dr. Jean-Jacques Szczeciniarz
Equipe REHSEIS/CNRS – Universidade de Bordeaux
III – França
O seminário foi realizado
em 4 seções que se concentraram na apresentação
e discussão das obras de Copérnico, Kepler, Galileu
e Newton, em astronomia, e em como tais obras levantaram questões
cosmológicas que, re-elaboradas, viriam a formar a base
da cosmologia do século XX. Foram seminários que
seguiram uma linha histórica, mantendo a preocupação
básica de entender os significados dos conceitos primários
daqueles autores que expressaram rupturas em relação
à cosmologia aristotélica e medieval. Com isso foram
admitidos no âmbito cosmológico conceitos que não
poderiam ser elaborados fora do quadro heliocêntrico.
Seminário 1 - 24/07/2003:
Copérnico e seus efeitos cosmológicos e filosóficos
O primeiro seminário foi dedicado à apresentação
das idéias revolucionárias de Nicolau Copérnico,
tanto na sua obra de 1510, o Commentariolus, quanto na sua obra
mais expressiva em astronomia, As revoluções dos
orbes celestes, de 1543. A análise teve como guia básico
as noções de “homogeneidade do espaço”
e de “observador numa Terra em movimento”. Apresentando
cronologicamente o desenvolvimento do pensamento copernicano,
expresso nas suas teses centrais de mobilidade da Terra e de centralidade
do Sol, o Prof. Jean-Jacques desenhou um quadro interessante e
sugestivo sobre o modo pelo qual o copernicanismo influenciou
uma nova imagem do mundo. Tal imagem extrapola o plano meramente
astronômico – no qual as teses copernicanas seriam
apenas novas propostas para a elaboração de prognósticos
– e indica novas possibilidades no plano cosmológico.
Recuperando a noção de “esfera celeste”,
o Prof. Jean-Jacques passou da concepção antiga
– segundo a qual o universo é finito e a esfera é
a figura geométrica que possibilita tratar cosmologicamente
tal mundo – para as novas possibilidades suscitadas quando
se coloca a Terra em movimento - primeiro para se saber como o
observador, num corpo em movimento, pode elaborar conhecimentos
científicos (em particular astronômicos) e, subseqüentemente,
como, abandonando a idéia de centro pela de um mundo indeterminado,
também podemos obter conhecimento. Neste sentido, a noção
de homogeneidade do espaço cosmológico apresenta-se
como uma das principais características do copernicanismo,
pois um espaço não qualitativo (i.e. quantitativo)
permite a mudança do enfoque meramente fenomenológico
para o conceitual. Novas categorias sobre a aparência e
a realidade apresentam-se quando mudamos o centro do mundo: se
no mundo grego-medieval a esfera com o seu centro na Terra mostra
que os movimentos irregulares dos planetas pertencem à
categoria da realidade, na esfera copernicana tais irregularidades
são aparentes, pois dependem da localização
do observador, que se move junto com o centro de observação.
Com isso, o copernicanismo abriu portas tanto para a filosofia
- sintetizada na expressão kantiana de “revolução
copernicana” - quanto para a ciência, que teve duas
vertentes básicas: o tratamento da periodicidade dos movimentos
planetários e as análises da física terrestre
quando o observador move-se junto com o centro de observação,
assuntos que foram tratados nos dois seminários posteriores.
Seminário 2 –
31/07/2003
Kepler e a cosmologia do Harmonia do mundo
O segundo seminário foi dedicado aos trabalhos astronômicos
de Johannes Kepler. Analisando o conceito de harmonia kepleriana,
o Prof. Jean-Jacques apresentou as idéias centrais sobre
a harmonia expressas nas obras de Kepler Mysterium cosmographicum,
de 1596, e Harmonia de mundo, de 1618. A importância de
Kepler dentro do programa copernicano está em ter desenvolvido
as propostas originais de Copérnico, explorando novos domínios
conceituais. Além do fato de Kepler ter sido o primeiro
a propor e desenvolver uma astronomia física dentro do
copernicanismo, destacam-se os desenvolvimentos referentes às
relações matemáticas (harmônicas) entre
os tempos de percurso e as variações das velocidades
dos planetas em função das alterações
em suas distâncias ao Sol. Kepler formulou modelos que,
por mais estranhos que possam parecer para a ciência contemporânea
– tais como o modelo dos sólidos perfeitos e o das
escalas musicais –, foram fundamentais para o desenvolvimento
do programa copernicano. Sendo o Sol o centro de movimentos, e
a Terra um planeta como outro qualquer, movendo-se ao redor do
centro, pode-se extrair relações entre os movimentos
planetários – algo impossível nos modelos
ptolomaicos que isolavam os planetas. Com isso, temos o desenvolvimento
da noção de sistema matematicamente (i.e. geometricamente)
integrado (algo já presente em Copérnico, porém
não plenamente desenvolvido); em outros termos, o copernicanismo
pode ser visto como uma cosmologia que permite integrar num mesmo
sistema as diversas relações entre os movimentos
dos planetas (que podem ser vistas como leis dos movimentos planetários).
O Prof. Jean-Jacques apresentou, com alguns detalhes, os aspectos
técnicos matemáticos utilizados por Kepler tanto
na elaboração do modelo dos sólidos perfeitos
como na do modelo da escala musical.
Seminário 3 –
04/08/2003
A quase-cosmologia galileana e as observações
de fundo de Newton
O terceiro seminário tratou de Galileu e Newton. Se Kepler
desenvolveu a parte astronômica da nova cosmologia copernicana,
Galileu dedicou-se a desenvolver, em relação à
física terrestre, os argumentos a favor da mobilidade da
Terra. O heliocentrismo de Copérnico continha em potência
a possibilidade de desenvolver uma física distinta da aristotélica
(centrada na imobilidade da Terra); porém, assim como fizera
no caso dos períodos planetários (que seriam tratados
mais detidamente por Kepler), Copérnico não desenvolveu
detalhadamente argumentos a favor de uma Terra em movimento, mas
apenas os esboçou. Galileu, tratando da questão
da relatividade dos movimentos, possibilitou dar plausibilidade
a uma Terra em movimento. O observador acompanha o centro de observação
em seus movimentos, e pelo conceito de inércia, já
presente num certo sentido em Galileu, pode-se entender que o
movimento terrestre é, no sentido aristotélico,
natural e não violento. Apenas se o movimento terrestre
fosse violento poder-se-ia argumentar contra uma Terra em movimento
– um corpo terrestre seria arremessado da Terra se esta
estivesse imóvel e lhe fosse impresso um movimento, mas
não se o seu movimento fosse natural. Newton desenvolveu
a parte astronômica kepleriana e a terrestre galileana num
corpo integrado, realizando uma síntese. O tratamento matemático
dado por Newton aos fenômenos celestes e terrestres representou
o ápice do copernicanismo, no qual a noção
de um espaço homogêneo, quantificado e conceitualmente
dependente do observador terrestre deu-lhe a roupagem final. que
se manteria por todo o período clássico de desenvolvimento
da física.
Seminário 4 –
07/08/2003
As aberturas modernas na obra cosmológica de Jacques
Merleau-Ponty
O quarto e último seminário tratou da cosmologia
contemporânea. O Prof. Jean-Jacques deu uma visão
geral sobre a ciência da cosmologia no século XX,
tendo como guia a obra de Jacques Merleau-Ponty, especialmente
seu trabalho em parceria com Bruno Morando, Les trois étapes
de la cosmologie. Vimos como a noção de esfera também
está presente nas especulações sobre o cosmo
no século XX, agora reelaborada em termos de geometrias
não-euclidianas e geometria diferencial. Partindo das teorias
revolucionárias de Einstein sobre a relatividade, foram
discutidas concepções modernas sobre o cosmo, tais
como os diferentes modelos cosmológicos (métricas),
a teoria do Big Bang, e os vários tipos de evidências
observacionais relevantes. Aliado a isso está a importância
da herança copernicana para a elaboração
dos modelos da cosmologia contemporânea. Importante destaque
foi dado ao reaparecimento, na cosmologia contemporânea,
dos aspectos evolutivos-cosmogônicos que foram perdidos
ao longo do desenvolvimento da cosmologia formal, principalmente
nos séculos XVIII e XIX. O seminário foi encerrado
com um conjunto de questões de cunho filosófico
e metafísico que decorre do sistema conceitual da cosmologia
contemporânea.
Bibliografia geral
Copérnico, N. As revoluções
dos orbes celestes. Trad. de A.D. Gomes & G. Domingues. Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.
__________. Commentariolus: pequeno comentário de Nicolau
Copérnico sobre suas próprias hipóteses acerca
dos movimentos celestes. Trad., introd. e notas de R. A. Martins.
São Paulo/Rio de Janeiro, Nova Stella/Coppe/MAST, 1990.
__________. Des révolutions des orbes celestes. Trad. de
A. Koyré. Paris, Diderot Éditeur, 1998.
Galileu Galilei, Diálogo sobre os dois máximos sistemas
do mundo ptolomaico e copernicano. Trad., introd. e notas de P.
R. Mariconda. São Paulo, Discurso Editorial/FAPESP, 2001.
Kepler, J. The secret of the universe (Mysterium cosmographicum).
Trad. de A. Duncan. Nova Iorque, Abaris Book, 1981.
__________. Le secret du monde. Trad. de A. Segonds. Paris, Gallimard,
1984.
__________. Harmonies of the world. Book V. Trad. De Ch. G. Wallis.
Nova Iorque, Prometheus Books, 1995.
Mariconda, P. R. “O Diálogo de Galileu e a condenação”.
In: Cadernos de História e Filosofia da Ciência,
série 3, vol. 10, n. 1, 2000, p. 77-160.
Merleau-Ponty, J. Les trois étapes de la cosmologie. Paris,
Laffont, 1971.
__________. Cosmologie du Xxe siècle. Etude épistémologique
et historique des théories de la cosmologie contemporaine.
Paris, Gallimard, 1965.
Newton, I. The Principia. Mathematical principles of natural philosophy.
Trad. de I. B. Cohen & A. Whitman. Berkeley, University of
California Press, 1999.
Szczeciniarz, J. J. Copernic et la révolution copernicienne.
Paris, Flammarion, 1998.
Organização:
Grupo Temático Estudos de Filosofia e História da
Ciência
Apoio Institucional:
USP e Fapesp