II Seminário Internacional
FILOSOFIA E HISTÓRIA DA CIÊNCIA

Filosofia e ciência na época das Luzes

Prof. Dr. Michel Paty
Equipe REHSEIS/CNRS – Universidade de Paris 7 – França

Este seminário foi realizado em oito seções que discutiram a relação entre a filosofia e a ciência na época das Luzes, ou seja, durante praticamente todo o século XVIII.

Seminário 1 - 08/08/2003
Física qualitativa e física matematizada no século XVIII
No primeiro seminário, Michel Paty expôs as diretrizes básicas do seminário, tais como: o processo de matematização do mundo físico operado no século XVIII; a mecânica celeste como a expressão teórica mais importante nesse século, desenvolvida a partir da teoria newtoniana dos movimentos; o papel de D`Alembert como um personagem central nesse processo, pois ele refinou e reformulou conceitos, tanto espistemológicos quanto metodológicos, importantes para a matematização do mundo físico. O primeiro aspecto a ser discutido foi a mudança da concepção qualitativa e substancialista dada ao mundo físico para a matematização da matéria. Os trabalhos de François Labat de Vivens foram apresentados e discutidos; neste autor, apesar de haver ainda uma predominância metafísica em suas concepções, já ocorre uma tentativa de estudo da matéria mediante a análise matemática.

Seminário 2 – 22/08/2003
D’Alembert: a ciência newtoniana e a herança cartesiana
Alguns aspectos da obra de Vivens são, desse modo, analisados com mais detalhes, sobretudo seus estudos sobre o vôo das aves. Realizados juntos com Montesquieur, estes estudos apresentam uma explicação substancialista para fenômenos hidrodinâmicos particulares: aceita-se a capacidade de armazenamento da força centrífuga. D’Alembert e Montesquieur criticam as explicações iatromecânicas de Borelli. Concluída esta analise, Paty introduziu o estudo do contexto histórico e intelectual presente na época do desenvolvimento das pesquisas de D´Alembert, procurando identificar as principais influências filosóficas recebidas pelo autor. O autor é primeiramente caracterizado como integrando, junto com Clairaut e Euler, o grupo de pensadores responsáveis pelo desenvolvimento da mecânica clássica depois de Newton. Este grupo teria inaugurado um estilo analítico em mecânica pela aplicação do cálculo integral e diferencial. Dos trabalhos desses autores, e de D´Alembert em particular, nasce uma interpretação da metafísica como epistemologia em seu sentido mais contemporâneo de crítica da ciência. Além disso, a mecânica analítica de D´Alembert é uma dinâmica já bastante diferente da filosofia natural de Newton: em seu Tratado de Dinâmica o autor não usou o conceito newtoniano de força por considerá-lo ambíguo e a dinâmica é fundada em princípio racionais gerais.

Seminário 3 – 05/09/2003
A origem hidrodinâmica do princípio de D’Alembert
Este seminário continua a análise das influências filosóficas e intelectuais recebidas por D´Alembert, explorando mais detidamente o papel da articulação entre o cartesianismo e o newtonianismo no desenvolvimento de sua obra. A conclusão geral obtida é que o autor manteve do cartesianismo a busca de inteligibilidade racional dos princípios do conhecimento, aplicada, então, na reorganização da ciência de Newton. Neste processo também teria comparecido a influência de Leibniz através de Jean Bernoulli, na qual a análise aparece como ferramenta do pensamento. Em resumo, D'Alembert reinterpreta a física newtoniana de modo a torná-la compatível com a inteligibilidade cartesiana. Dentre os vários efeitos desta reorganização, estaria o afastamento dos aspectos qualitativos ainda presentes em Newton e decorrentes de suas concepções neoplatônicas. Tais concepções, enquanto consideradas metafísicas no sentido tradicional, seriam criticadas através do novo sentido de metafísica empregado por D'Alembert como epistemologia crítica dos conceitos científicos. Isso permite concluir que essa epistemologia que viria a caracterizar a posição filosófica neopositivista contemporânea nasceu, no século XVIII, dentro e contra a metafísica tradicional. Passando, então, para os aspectos mais filosóficos da obra de D'Alembert, Paty introduz a análise do Discurso Preliminar da Enciclopédia, identificando a avaliação que o autor faz das filosofias de Bacon, Newton e Descartes. Este último será examinado em detalhe no próximo seminário.

Seminário 4 – 19/09/2003
Princípios da mecânica e análise em D’Alembert
O quarto seminário foi dedicado á importância de Descartes para o pensamento de D`Alembert. A racionalidade proposta pelo cartesianismo, na qual a geometria analítica é a sua base, condicionou, segundo D`Alembert, uma significativa mudança epistêmica para as ciências físicas, pois essas puderam ser entendidas como ciências que tratam de grandezas contínuas. D`Alembert entendeu o cartesianismo como algo novo e engenhoso, apesar de rejeitar muitos dos resultados e teorias propostas, como a teoria dos turbilhões. Com a proposta de Descartes, temos as origens para o processo de matematização do mundo físico. Paty também salientou a concepção de história da ciência de D`Alembert, em que Descartes, apesar dos muitos erros, fez a melhor física para a sua época, necessitando, subseqüentemente, de reajustes e refinamentos.

Seminário 5 – 03/10/2003
O elemento diferencial do tempo e a causalidade física na dinâmica de D’Alembert
Após a discussão sobre Descartes, Paty introduziu a influência de alguns autores leibnizanos sobre o pensamento de D’Alembert: os Bernoulli, o Marquis de l´Hopital e Pierre Varignon. A partir da análise dessa influência é examinada a questão teórica fundamental da física-matemática implicada na utilização de grandezas infinitesimais na física. Para que tal utilização fosse possível, valeu-se de uma forma de geometria que inclui o tempo (na geração de curvas) e, com isso, abre-se toda uma discussão do caráter abstrato da geometria – como em Descartes – contraposto ao caráter empírico dessa geometria aplicada à física pela mecânica analítica. No contexto dessa discussão, Paty introduz uma análise mais detalhada e física da dinâmica de D’Alembert. Nela são apresentados a origem e o desenvolvimento de seus princípios fundamentais que, partindo de problemas de hidrodinâmica e de refração, culminam na formulação do princípio sintético ou teorema da dinâmica de D’Alembert.

Seminário 6 – 17/10/2003
A reflexão crítica sobre os conceitos ou a epistemologia antecipadora de D’Alembert
No sexto seminário Paty apresentou a mudança de enfoque dada por D`Alembert acerca da causalidade física. Newton absteve-se de tratar da causalidade, concentrando-se na noção de “força”, algo entendido por D`Alembert como pertencente à metafísica tradicional. Para o pensador francês, a causalidade deve ser compreendida dentro de um contexto estrito, e não geral; neste sentido, a ciência física ganha se tratar a causalidade dentro do âmbito da relação causa e efeito, isto é, ela restringe-se somente àquilo que pode ser retirado dos fenômenos físicos; assim, a relação causa e efeito, quando aplicada aos movimentos dos corpos, trata da aceleração, e não de forças. O mundo físico, por esse viés, é compreendido como mudança de movimentos, que, por sua vez, é reduzido a deslocamento de corpos no espaço e num certo tempo. No novo quadro desenhado por D`Alembert as noções metafísicas presentes na ciência física do século XVII não se mostram necessárias; em seu lugar, tratam-se dos deslocamentos espaço-temporais, cabendo à causalidade expressar tal mudança.

Seminário 7 – 31/10/2003
A gênese da causalidade física
O seminário é introduzido com algumas considerações sobre D´Alembert como historiador da ciência, mas é retomada a seguir a análise da noção de causalidade física. Paty apresenta um histórico da noção de causalidade, de suas origens jurídicas até sua associação moderna com as leis quantitativas. Em seguida, discute a noção para o século XVIII, destacando a relação entre causalidade como anterioridade lógica e como anterioridade temporal. Um estudo particular dessa relação é feito por Paty para Kant.

Seminário 8 – 14/11/2003
A noção de determinismo em física e seus limites
No último seminário, Paty encerra a discussão sobre a causalidade física relacionando-a às noções de determinismo e de necessidade. Inicialmente, é feito um breve histórico da noção de determinismo até D’Alembert que é, então, apresentado como introdutor da noção de determinismo que se tornaria posteriormente mais explícita, principalmente em Laplace. Nesse histórico também é abordado o papel da noção de probabilidade. Após as considerações históricas, Paty apresenta uma discussão mais filosófica na qual a necessidade aparece como uma noção de caráter mais geral, enquanto o determinismo estaria ligado a representações particulares da realidade. O determinismo, por sua vez, toma a causalidade como princípio de base associado a condições iniciais em um tempo T qualquer, visando conhecer o futuro. Necessidade, determinismo e causalidade seriam noções metateóricas que foram recebidas pelos cientistas e que, em alguns casos, foram consideradas como princípios absolutos. Neste caso, o fracasso destes princípios implicaria na própria impossibilidade do pensamento. Encerrando o ciclo de seminários, foram feitas algumas considerações de como a física contemporânea teria ultrapassado essas noções metateóricas que outrora foram consideradas como absolutas.

Bibliografia geral

(1) Os seminários estiveram baseados nos seguintes trabalhos de Michel Paty:

Paty, M. Le caractère historique de l'adéquation des mathématiques à la physique. In: Garma, S.; Flament, D. & Navarro, V. (Ed.). Contra los titanes de la rutina. Madrid, Comunidad de Madrid/C.S.I.C., 1994, p. 401-28.
______. “Mathesis universalis” e inteligibilidade em Descartes. Cadernos de História e Filosofia da Ciência, Série 3, 8, 1, p. 9-57, 1998.
______. La philosophie et la physique. In: Mattéi, J-F. (Ed.). Le discours philosophique. Paris, Presses Universitaires de France, Cap. 123, p. 2104-22, 1998. (Encyclopédie philosophique universelle, v. 4).
______. D'Alembert, la science newtonienne et l'héritage cartésien. Revue de Philosophie, 38, p. 19-64, 2001.
______. La notion de grandeur et la légitimité de la mathématisation en physique. In: Espinoza, M. (Ed.). De la science à la philosophie. Hommage à Jean Largeault, Paris, L'Harmattan, 2001, p. 247-86.
______. Une métaphysique du mouvement au temps de d'Alembert. La théorie physique du monde du Chevalier François de Vivens. In: Kölving, U & Passeron, I. (Ed.). Science, Musiques, Lumieres. Mélanges offerts à Anne-Marie Chouillet. Paris, Centre International d’Etude du XVIIIè siècle / Ferney-Voltaire, 2002, p. 59-81.
______. Les recherches actuelles sur d'Alembert. A propos de l'édition de ses Oeuvres complètes. In: Michel, A. & Paty, M. (Ed.). Analyse et dynamique. Études sur l'œuvre de d'Alembert. Québec, Presses de l'Université Laval, 2002, p. 25-93.
______. Principes de la mécanique et analyse chez d'Alembert. Le point de vue conceptuel, à paraître.
______. L'origine hydrodynamique du principe de d’Alembert (en collab. avec Gérard Grimberg), à paraître.
______. L’élément différentiel de temps et la causalité physique dans la dynamique de Alembert, in Allard, André & Morelon, Régis, et al. (eds.), Livre de Mélanges en hommage à Roshdi Rashed, à paraître.
______. Genèse de la causalité physique, soumis à Revue philosophique de Louvain.
______. La notion de déterminisme en physique et ses limites, in Debru, Claude et Viennot, Laurence (éds.), Enquête sur le concept de causalité, Collection “ Sciences, histoire et société ”, Presses Universitaires de France, Paris, 2003, à paraître.

(2) Indicou-se também a seguinte Bibliografia geral:

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ALEMBERT, Jean le Rond D’ [1758]. Essai sur les éléments de philosophie ou sur les principes des connaissances humaines, Paris, 1758. Ré-éd. (avec les Eclaircissements de 1765), Olms Verlag, Hildesheim, 1965 ; Fayard, Paris, 1986.
BACHELARD, Gaston [1938]. La formation de l'esprit scientifique, Vrin, Paris, 1938 ; 8è éd., 1972.
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CLAIRAUT, Alexis [1743]. Traité de la forme de la Terre, Paris, 1743.
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