|
O presente projeto
temático de pesquisa move-se num campo de investigação
que recebe contribuições de pesquisadores das mais
diversas áreas. Apesar da grande variedade dos temas particulares
de pesquisa desenvolvidos no interior do campo, as pesquisas têm
como eixo comum o uso de instrumentais analíticos das ciências
humanas para interpretar, compreender e diagnosticar os mais diversos
aspectos das condições e conseqüências
das práticas científicas. Até a década
de 1960, esse campo se caracterizava como multidisciplinar, uma
vez que os objetos de estudo no interior do campo eram divididos,
por assim dizer, igualmente entre a filosofia da ciência,
a história da ciência e a sociologia da ciência,
consideradas como disciplinas, em grande medida, estanques e independentes,
que circunscreviam objetos relativamente autônomos no interior
do campo de estudos. Esse equilíbrio multidisciplinar estava
então cristalizado em torno da distinção entre
a história interna e a história externa do desenvolvimento
científico. De modo resumido, a situação era
tal que os filósofos da ciência se encarregavam do
esclarecimento intrínseco de seus objetos de estudo, produzindo
uma reconstrução da inteligibilidade interna das obras
dos autores estudados, enquanto a história e a sociologia
da ciência visavam a compreensão histórica mediante
a inserção dos resultados metodológicos e teóricos
da filosofia da ciência em um contexto mais amplo. Admitia-se
também que esse "contexto mais amplo" podia ser
entendido de duas maneiras que se consideravam complementares, a
saber, seja no sentido da história do desenvolvimento racional
da ciência, caso em que se supõe que esse contexto
é, de certo modo, transcultural e a-histórico; seja
no sentido da história externa dos condicionantes sociais
e culturais da ciência. Em ambos os casos, o recurso ao contexto
conduz, de certo modo, ao enquadramento do objeto de estudo em um
conjunto de procedimentos analíticos que visam, grosso modo,
o estabelecimento das condições de cientificidade.
Evidentemente, no primeiro caso, essas condições são
racionais, entendidas ex temporis; no outro, são sociais
e culturais, entendidas in temporis.
A partir da década
de 1960, em particular a partir dos trabalhos de Thomas S. Kuhn,
esse equilíbrio multidisciplinar que dividia o campo entre
a filosofia, a história e a sociologia rompeu-se e assistiu-se
a um aguçamento das especialidades disciplinares e a uma
luta aberta pela hegemonia do campo de estudos. De fato, embora
Kuhn se mantivesse ainda, de certo modo, na perspectiva internalista,
gerou uma crise nos modelos de análise conceitual e de reconstrução
filosóficas adotados até então pela historiografia
da ciência. Sua insistência de que mesmo no plano interno
a pesquisa científica é comunitária, obedecendo
a padrões sociológicos na geração dos
consensos científicos, conduz à posição
relativista de que a ciência não se define por meio
de padrões metodológicos a-temporais, mas é
mesmo internamente condicionada por fatores sociais, estando envolvidos
na pesquisa científica padrões valorativos, não
apenas cognitivos e epistemológicos, mas também sociais
e morais, que evoluem com o tempo, assim como o fazem aliás
também os padrões metodológicos, que a filosofia
da ciência pretendia universais e invariáveis, mas
que se revelam, em verdade, sujeitos a questionamento e reformulação.
Kuhn nunca fez sociologia da ciência ou mesmo história
externa, mas sua relativização do conceito de ciência
e a aproximação da ciência a uma prática
social acabou por estimular os estudos externalistas sociológicos,
conduzindo ao abandono do modelo de sociologia da ciência
de Merton, que fizera parte da divisão anterior do campo,
e produzindo uma tensão clara entre a história da
ciência de orientação filosófica e a
história da ciência de orientação sociológica.
Essa luta da filosofia e da sociologia sobre aquela parte do campo
que se atribuía à história da ciência
é, na verdade, a expressão de uma oposição
profunda entre a "reconstrução filosófica",
que almeja o universal, e a "reconstrução sociológica",
que se define como necessariamente relativista. Uma enorme controvérsia
acompanhou os necessários realinhamentos disciplinares no
interior do campo com os filósofos da ciência denunciando
os perigos advindos do relativismo epistêmico, cujos principais
defensores são justamente os sociólogos da ciência
- sobretudo aqueles que se filiam ao chamado "programa forte
em sociologia do conhecimento".
Para fazer frente
à atual situação do campo de estudos sobre
a ciência, o programa temático aqui exposto está
constituído basicamente por duas linhas de pesquisa que se
complementam: uma linha teórica e uma linha histórica.
A parte teórica visa constituir um sistema de referência
analítico que forneça os instrumentos, de um lado,
para uma análise conceitual interna consistente e, de outro
lado, para o estudo de casos históricos. Neste sentido, o
programa está dirigido para abrir uma dupla perspectiva de
análise histórica: a perspectiva internalista e a
perspectiva externalista. No primeiro caso, almeja-se a reconstrução
da inteligibilidade interna dos textos tratados, explorando sua
dimensão conceitual e lógica. No segundo caso, procura-se
a contextualização histórica das teorias e
autores estudados, detalhando sua dimensão social e cultural.
Revela-se, em uma tal articulação, a vocação
unificadora ou, em uma nomenclatura menos rigorosa, eclética
do presente projeto. Na verdade, ele visa romper as barreiras da
multidisciplinaridade para alcançar uma efetiva colaboração
entre as diferentes perspectivas envolvidas de modo que haja um
enriquecimento significativo no tratamento dos objetos de estudo
e uma efetiva interdisciplinaridade.
|