59a Reunião Anual da SBPC – 2007
Local: Hangar – Belém do Pará
09 de julho de 2007

Encontro Aberto – Ética, Ciência e Tecnologia

2. Florescimento humano e conservação da natureza

Maurício DE CARVALHO RAMOS


Uma das posições proposta para discussão neste encontro é a recusa da idéia de que a ciência e a tecnologia não podem ser conciliadas com a ética. Ao contrário, penso que a ciência e a tecnologia, que já não são neutras, tornam-se ainda mais articuladas e comprometidas com os valores e com a ética quando o humano e o vivo são tomados como objeto de modificação e de controle. Assim, minha posição a este respeito é a de que o estudo científico e o uso tecnológico de sistemas biológicos, humanos e não-humanos, exigem um tratamento genuinamente ético da ciência e da tecnologia. Parte significativa de minha exposição é um esclarecimento do que seja este "genuinamente", mesmo aceitando que falar em ética genuína seja uma redundância, já que uma ética não genuína não seria propriamente uma ética. Contudo, mantenho a redundância justamente para criticar as posições ilegítimas que são apresentadas como éticas.

Começarei considerando certos aspectos da comparação entre artefatos, seres vivos e seres humanos quanto às suas propriedades teleológicas. Não penso que haja propósitos naturais nos seres vivos tais como os propósitos presentes ações humanas. Mas também não aceito que o estudo das propriedades materiais dos seres vivos pelas ciências naturais venha a eliminar o estudo dos propósitos humanos por meio de teorias oriundas das ciências humanas. Com isso em vista, vejamos primeiramente a teleologia ligada aos artefatos e à tecnologia.

Pode-se sustentar que o conhecimento, as práticas e os objetos tecnológicos são tipicamente determinados por seu caráter finalístico ou teleológico. Os artefatos claramente incorporam finalidades ligadas aos interesses humanos. Há muitos estudos em filosofia da tecnologia sobre essa particularidade, mas considerarei apenas a afirmação de que, em função de suas propriedades teleológicas (a eficácia e a capacidade de resolver problemas), a tecnologia está diretamente ligada ao domínio dos valores e da ética. Para mim, isso significa que os atores tecnológicos estão racionalmente comprometidos com avaliações de longo alcance de suas atividades. Os propósitos tecnológicos não podem ser legitimamente avaliados recorrendo a gostos, preferências ou crenças pessoais; nem mesmo a boa intenção seria aqui suficiente. Ações tecnológicas eticamente comprometidas devem colocar seus interesses e suas metas em uma perspectiva valorativa maior e que leve em consideração o interesse coletivo em uma escala sempre crescente. Tal escala pode ir desde a sociedade brasileira no seu conjunto – e não os interesses particulares das corporações, organizações, partidos etc. – até uma espécie de "sujeito universal ideal" que seria expressaria, como no utilitarismo, o que há de comum aos interesses de todos os humanos. Isso significa dizer que uma ética deve conter algum nível real ou ideal de universalidade, não importando, em princípio, o que fundamenta tal universalidade. Assim, uma ética legítima para a atividade tecnológica deve apoiar-se em noções universais de interesse, de progresso, de desenvolvimento, de aperfeiçoamento etc. que possuam grande alcance cultural e humanístico. Além disso, as concepções que sustentam estes genuínos interesses devem possuir grande refinamento teórico; elas não devem depender principalmente de experiência profissional, do apelo ao bom senso, da intimidade de cada um ou de análises "caso a caso" (muitas vezes feitas pelos próprios interessados na manutenção de interesses restritos a grupos particulares). Em síntese, devemos ser capazes de formular de maneira ampla e crítica o que entendemos por prosperidade ou florescimento humano.

Passarei agora a dizer algumas palavras sobre o que considero uma concepção do florescimento humano eticamente correta. A idéia básica que proponho é, dita de maneira muito geral, a de que é possível harmonizar o florescimento humano e o "florescimento da vida", este último concebido a partir das propriedades de individuação, auto-reprodução e evolução dos seres vivos. Não entrarei aqui em detalhes sobre o que tais propriedades são em si mesmas, mas proporei a idéia de que os seres vivos adquiriram e expressam tais propriedades de modo não finalista. É possível explicar em termos científicos naturalistas que um processo puramente físico e material originou três tipos de propriedades e de coisas: (1) um processo de evolução orgânica que, mesmo não dirigido para um fim, produz uma rica e variável diversidade de seres na forma de espécies biológicas que, por sua vez, realizam uma enorme variedade de coisas que, de outro modo, seriam meramente possíveis; (2) um processo de auto-regeneração dessa diversidade evolutivamente produzida através da auto-reprodução na forma de ciclos vitais; por fim, (3) há a geração, no interior dessa combinação da fixidez do ciclo vital e da variabilidade da evolução orgânica, de seres vivos dotados de individualidade, ou seja, de características que os torne únicos ou singulares, apesar de produzidos por processos naturais regidos por leis universais. Estas seriam as principais propriedades deste "fluxo de vida" que, segundo minha proposta, permitem que ele seja eticamente valorizado como tal. Isso teria conseqüências práticas de grande amplitude para a pesquisa científica e tecnológica, já que deveríamos valorizar o fluxo de vida da maneira como ele é e como se expressa, e não da maneira como ele poderia ser caso fosse transformado de modo a atender necessidades humanas. Em outras palavras, trata-se de uma aceitação ampla do valor de conservação do meio ambiente como necessário a uma concepção eticamente correta e racionalmente sustentada (pela aceitação de resultados oriundos das pesquisas biológicas) de florescimento humano. Ela entende que é melhor viver em um planeta em que parte significativa da vida possa continuar a fluir sem nossa interferência. Retomando as três propriedades anteriores, isso levaria (1) à manutenção da continuidade do processo de produção da diversidade apenas pela ação das forças biológicas, (2) à manutenção do poder reprodutivo e regenerativo de parte significativa das espécies exatamente como a evolução orgânica as produziu e (3) exigiria que se considerasse seriamente, em termos éticos, o valor das expressões de singularidade e de individualidade dos organismos. Dessa perspectiva, passa a ser um grande erro valorizar as espécies biológicas apenas ou principalmente pela capacidade de serem utilizadas tecnologicamente ou comercialmente; do mesmo modo, seria um erro preservar a diversidade biológica e o meio ambiente apenas ou principalmente como bancos genéticos, como fontes de substâncias úteis para o homem ou mesmo para desenvolver o turismo ecológico. Porém, tudo isso não proíbe intransigentemente, tal como poderia ser feito por um certo misticismo ecológico, qualquer transformação da natureza voltada principalmente para os interesses humanos. Tais transformações podem ser inteiramente compatíveis com o valor de conservação, que viabilizaria modificações não mais baseadas no controle tecnológicas da natureza, mas na interação harmoniosa entre os ritmos espontâneos da vida e a inventividade humana. Pensamos que tal forma de valorização é inteiramente racional e viável cientifica e tecnologicamente.

Gostaria de examinar agora, mesmo rapidamente, a possibilidade de produzir tecnologicamente as três propriedades anteriormente apresentada que definem o fluxo de vida. Trata-se da produção de artefatos individualizados, auto-reprodutivos e evolutivos. A valorização do fluxo da vida não está baseada apenas em seu caráter natural, já que aceita a possibilidade de sua transformação para muitos casos. Porém, ela afirma, por razões científicas e éticas combinadas, que esse fluxo vital não é intencionalmente dirigido e que deve, em parte, assim continuara se manifestar. A afirmação de que o homem deve melhorar a natureza baseia-se em uma metafísica que pode levar à escolha de teorias não-científicas e a práticas eticamente reprováveis. Um exemplo disso está na prática e no discurso daqueles que pensam que a tecnologia pode e deve conduzir à vitória final do espírito sobre a matéria ou, em outros termos, da liberdade da inventividade humana contra a resistência da natureza. Teologicamente, a tecnologia (e a ciência) tornaria o homem e Deus co-criadores da natureza. Também poderíamos aqui incluir aqueles que defendem a identidade dos processos biológicos e tecnológicos e, conseqüentemente, a continuidade das evoluções biológica e tecnológica. De minha perspectiva, conservar a natureza é uma atitude mais racional do que tentar melhorá-la integralmente. Mesmo que seja possível substituir completamente os processos ditos naturais por processos artificiais, isso não deve ser feito, já que seria irracional e eticamente incorreto.

Gostaria de concluir desenvolvendo um pouco o que consiste essa atitude racional relacionada ao valor de conservação ambiental e propondo algumas questões finais. Se falo todas estas coisas e proponho tais idéias para discussão é porque valorizo e admiro tanto a ciência quanto a tecnologia e não as considero como maus que devem ser combatidos e eliminados das práticas humanas. É fácil perceber que o problema está na maneira pela qual a ciência e a tecnologia são praticadas; penso que se cientistas e tecnólogos não levarem mais a sério a ética a própria continuidade da ciência e da tecnologia poderá estar em risco. Penso assim porque considero a racionalidade como um valor universal e a ciência como uma forma particularmente rica de praticar tal racionalidade, desde que a ciência seja exercida de maneira imparcial e que o desenvolvimento da tecnologia seja informado (1) por essa mesma ciência imparcial e, como disse, (2) por valores éticos universais de grande alcance cultural e humanístico. Esta atitude opõe-se de maneira clara e enérgica a toda ameaça à imparcialidade da ciência, certamente presente em muitas, mas não em todas, relações entre a pesquisa científica e as atividades das empresas comerciais. Assim, se a ciência e a tecnologia puderem ser praticadas com tais características, será possível viabilizar propostas como as que fiz anteriormente, de harmonizar o florescimento humano e o florescimento da vida. Concordo com Putnam quando diz que a ciência realmente cultiva em seus praticantes características que levam ao florescimento humano; porém, penso que não é qualquer ciência que pode cumprir tal papel. É preciso adotar uma pluralidade de padrões de aceitabilidade racional ou de conjunto de valores cognitivos associados a diferentes estratégias de pesquisa científica. Mas, mesmo com tal pluralidade, é sempre possível conceber uma idéia de florescimento humano que incorpore a valorização da racionalidade e da ciência imparcial.

Quanto à ética, a simples exigência de um certo nível de universalidade para os valores que conduzirão as práticas científicas e tecnológicas já é expressão de uma racionalidade geral. Esses valores universais também devem ser, como disse anteriormente, de grande alcance cultural e humanístico, abrindo-se para a diversidade das culturas, dos conhecimentos e das formas de entendimento. Isso permite que a universalidade não confira uma fixidez absoluta aos valores, mas permita uma visão dinâmica da ética Tal visão não faria com que a ética resistisse à variabilidade do mundo empírico, mas que se desenvolvesse junto com ele. Do mesmo modo, aceitar uma pluralidade de estratégias de pesquisa regulada por esta racionalidade geral não exige que assumamos o pesado ônus do relativismo. Também não precisamos assumir os falsos dilemas postos pela falsa racionalidade que coloca o controle materialista da natureza como principal valor de sustentação ética para o desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Como exemplo geral de falso dilema está a idéia de "mal necessário". Tal idéia confere retoricamente autoridade para escolhas do tipo: o que a sociedade quer, preservação do ambiente ou produção de energia? O que queremos: correr o suposto risco implícito no desenvolvimento e no uso de organismos transgênicos ou produzir alimentos na quantidade necessária para acabar com a fome no mundo? E, como exemplo de uma falsa escolha de grande alcance, teríamos: queremos um Brasil mais ético ou um Brasil mais competitivo e economicamente desenvolvido? A ética a que aqui procurei defender se realiza plenamente apenas na ação. Assim, aceitar "discursivamente" que certas coisas são más ou erradas significa que não devemos praticá-las. Mas se afirmarmos que tais práticas são necessárias, devemos igualmente afirmar que elas são boas ou corretas. Ao aceitarmos que é necessário destruir o meio ambiente para aumentar a produção de energia, estamos aceitando que tal destruição é um bem – é apenas retoricamente que falamos publicamente que ela é um mal, um mal necessário. Isto se aplicaria a muitos outros casos, mas considero particularmente preocupantes os seguintes: aceitar como maus necessários a ameaça da imparcialidade científica para que ela possa continuar a ser financiada e a idéia de que a única forma de transferir os bens tecnológicos para a sociedade é transformando-os em mercadorias. Como biólogo que se voltou para a filosofia para melhor compreender, admirar e valoriza a ciência, estes falaciosos maus necessários envolvem riscos reais que não aceito assumir. A ética deve formar com a racionalidade um núcleo a partir do qual emergem os valores que regularam as práticas científicas e tecnológicas, e nunca o contrário. Desse núcleo, que talvez expresse o que os humanos possuem de melhor, deve emergir a compreensão do florescimento humano que orientará nossas decisões e os riscos que queremos voluntariamente assumir.

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