Foram sugeridas algumas questões para desenvolver um
debate sobre aspectos da relação entre ética, ciência
e tecnologia conforme a visão e a experiência de um pesquisador
atuante que vivencia os problemas implicados nessa relação
nas ciências biomédicas. Dentre eles, destacam-se os que
resumirei a seguir, todes eles mais ou menos relacionados com as contradições
ou conflitos de interesses que ocorrem no dia a dia dos pesquisadores,
os quais deveriam conduzir a uma reflexão ética.
(1) A ultra-especialização, que leva a uma perda do todo
da ciência e, conseqüentemente, da visão de questões
para além da tecnociência praticada no dia a dia na bancada
do laboratório.
(2) Aumento do custo da prática científica, que pode comprometer
a imparcialidade da atividade científica, uma vez que obriga
o pesquisado a levantar somas cada vez maiores para permitir suas atividades
de pesquisa. Alguns equipamentos são tão caros que após
adquiri-los, o pesquisador torna-se deles dependente ou da constante
justificativa para sua aquisição, obrigando-o a acrescentar
a técnica utilizada no equipamento em futuros projetos. Muitas
vezes as mesmas questões proposta pela pesquisa poderiam ser
respondidas sem a necessidade do uso da técnica em questão.
(3) Despolitização e ausência na elaboração
das políticas científica, hoje coordenada pelas agências
de fomento e de coordenação como a CAPES e a FAPESP. É
muito comum o pesquisadro não se envolver nestas questões
por achar-se bem representado por seus pares nestas instituições.
(4) A criação de comissões de ética sobre
experimentação científica com organismos que, por
um lado, trouxe um avanço no sentido de padronizar procedimentos
éticos na experimentação científica com
animais mas, ao mesmo tempo, levou a uma terceirização
do julgamento ético como um todo, transferindo-o da esfera do
Laboratório para um órgão (comissão) externo;
ou seja, isentando o pesquisador de se envolver diretamente com questões
éticas que, assim se limitará a buscar na literatura protocolos
semelhantes aos que pretende utilizar e que já teham sido avaliados
e aceitos pelas comissões.
Como conseqüência das terceirizações das questões
éticas e de política científica (restritas aos
órgão financiadores), os pesquisadores, de maneira geral,
posicionam-se frente a elas de forma reativa e nunca propositiva.
(5) O volume de publicações nas áreas específicas
aumentou exponencialmente nas últimas décadas, sendo que
em algumas áreas é literalmente impossível que
o pesquisador leia o total das publicações existentes,
associado ao acúmulo de obrigações burocráticas
com a prestação de contas e administração
dos projetos. Somando-se a isso as atividades docentes e de orientações,
resta pouco ou nenhum tempo para reflexão.
(6) Conflito potencial de interesses entre as atividades exercidas pela
Universidade, apoiadas sobre o tripé ensino, pesquisa e extensão.
Uma vez que somente a pesquisa recebe apoio maciço pelas agências
financiadoras, cria-se um desequilíbrio entre as diferentes atividades
universitárias, ficando o pesquisador voltado prioritariamente
para a atividade de pesquisa, inclusive no que diz respeito à
divisão de seu tempo (como em uma república na qual o
poder executivo também legislasse, comprometendo o equilíbrio
entre seus 3 poderes). Esta distorção também leva
a Universidade a selecionar seus novos docentes prioritariamente por
sua capacidade de captar recursos juntos as agências e, secundariamente,
por sua didática e pela capacidade de desenvolver atividades
de extensão – o que cria um novo conflito de interesses
na própria categoria.
voltar