59a Reunião Anual da SBPC – 2007
Local: Hangar – Belém do Pará
09 de julho de 2007

Encontro Aberto – Ética, Ciência e Tecnologia

4. Questões para reflexão
sobre conflitos éticos na prática científica

José Roberto MACHADO CUNHA DA SILVA


Foram sugeridas algumas questões para desenvolver um debate sobre aspectos da relação entre ética, ciência e tecnologia conforme a visão e a experiência de um pesquisador atuante que vivencia os problemas implicados nessa relação nas ciências biomédicas. Dentre eles, destacam-se os que resumirei a seguir, todes eles mais ou menos relacionados com as contradições ou conflitos de interesses que ocorrem no dia a dia dos pesquisadores, os quais deveriam conduzir a uma reflexão ética.

(1) A ultra-especialização, que leva a uma perda do todo da ciência e, conseqüentemente, da visão de questões para além da tecnociência praticada no dia a dia na bancada do laboratório.

(2) Aumento do custo da prática científica, que pode comprometer a imparcialidade da atividade científica, uma vez que obriga o pesquisado a levantar somas cada vez maiores para permitir suas atividades de pesquisa. Alguns equipamentos são tão caros que após adquiri-los, o pesquisador torna-se deles dependente ou da constante justificativa para sua aquisição, obrigando-o a acrescentar a técnica utilizada no equipamento em futuros projetos. Muitas vezes as mesmas questões proposta pela pesquisa poderiam ser respondidas sem a necessidade do uso da técnica em questão.

(3) Despolitização e ausência na elaboração das políticas científica, hoje coordenada pelas agências de fomento e de coordenação como a CAPES e a FAPESP. É muito comum o pesquisadro não se envolver nestas questões por achar-se bem representado por seus pares nestas instituições.

(4) A criação de comissões de ética sobre experimentação científica com organismos que, por um lado, trouxe um avanço no sentido de padronizar procedimentos éticos na experimentação científica com animais mas, ao mesmo tempo, levou a uma terceirização do julgamento ético como um todo, transferindo-o da esfera do Laboratório para um órgão (comissão) externo; ou seja, isentando o pesquisador de se envolver diretamente com questões éticas que, assim se limitará a buscar na literatura protocolos semelhantes aos que pretende utilizar e que já teham sido avaliados e aceitos pelas comissões.
Como conseqüência das terceirizações das questões éticas e de política científica (restritas aos órgão financiadores), os pesquisadores, de maneira geral, posicionam-se frente a elas de forma reativa e nunca propositiva.

(5) O volume de publicações nas áreas específicas aumentou exponencialmente nas últimas décadas, sendo que em algumas áreas é literalmente impossível que o pesquisador leia o total das publicações existentes, associado ao acúmulo de obrigações burocráticas com a prestação de contas e administração dos projetos. Somando-se a isso as atividades docentes e de orientações, resta pouco ou nenhum tempo para reflexão.

(6) Conflito potencial de interesses entre as atividades exercidas pela Universidade, apoiadas sobre o tripé ensino, pesquisa e extensão. Uma vez que somente a pesquisa recebe apoio maciço pelas agências financiadoras, cria-se um desequilíbrio entre as diferentes atividades universitárias, ficando o pesquisador voltado prioritariamente para a atividade de pesquisa, inclusive no que diz respeito à divisão de seu tempo (como em uma república na qual o poder executivo também legislasse, comprometendo o equilíbrio entre seus 3 poderes). Esta distorção também leva a Universidade a selecionar seus novos docentes prioritariamente por sua capacidade de captar recursos juntos as agências e, secundariamente, por sua didática e pela capacidade de desenvolver atividades de extensão – o que cria um novo conflito de interesses na própria categoria.

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